O “sentir” voltou a ser uma questão para nós. O empirismo o esvazia de todo mistério, reconduzindo-o à posse de uma qualidade. Só o pudera fazer distanciando-se muito da acepção comum. Entre sentir e conhecer, a experiência comum estabelece uma diferença que não é a existente entre a qualidade e o conceito.
Merleau-Ponty. (1999). Fenomenologia da Percepção, p. 83.

O «monocromo» nas pinturas da paisagem tinha-se tornado um modo fenomenológico de percepção pictórica, mesmo que não fosse universalmente admirado, quando surgiu a partir dos anos 1950-60 com a art minimal. Todavia, trouxe profundas modificações na percepção estética da Arte Contemporânea. A fronteira entre a cor monocromática e a memória compositiva da paisagem deixou de ser absolutamente clara. A mudança na ideia da pintura como ilusão do espaço, segundo uma superfície dura ou lisa, ou embutida em duas cores, constitui um novo processo operacional estético na fenomenologia da percepção.
A paisagem de Jorge Santos, intitulada Bucólico, caracteriza-se por esta experiência fenomenológica da pintura minimal, na medida em que cria a opacidade e não a transparência, num processo concebido e vivido entre a cultura urbana e a natureza. O artista plástico apresenta uma série monocromática laranja, em que o negro surge como contraponto, numa inversão da cor, que produz uma reorientação do processo estético, abandonando, assim, o fundo como a escuridão e a natureza como memória. Esta descentralização da perceção começa com a incorporalidade do observador, originada pela relação entre corpo e espaço, ser e paisagem. De salientar que este conceito de “observador incorporado” surgiu com os artistas minimalistas, entre os quais destacamos Morris e Judd (Batchelor: 2000, p. 25), por despertarem no observador as contingências da localização dadas pela experiência do tempo e do espaço.
Nesta série, a incorporalidade revela-se. O observador tem a percepção do movimento na paisagem. Embora estejamos “exteriores” a ela, o artista coloca-nos na intimidade e no “interior” do campo de perceção da natureza, como se tivéssemos dentro dela. Desta rotação da perceção do campo fenomenal resulta o retorno aos “dados imediatos da consciência” (Merleau-Ponty: 1999, p. 90), isto é, o observador passa a corporalizar a própria paisagem, sendo a memória, o corpo que desenha a experiência do gesto, sendo a experiência delineada pelo significado entre o ser e o mundo sensível.
Bucólico expressa a nostalgia de uma poiesis idílica. Da tradição cultural ocidental emerge uma nova linguagem pastoril, com o intuito de cruzar a tradição campestre com o frenético e o impessoal citadino, e, simultaneamente, um passado idílico de um caminhante solitário com um presente urbano desfragmentado.

Joana Consiglieri
Lisboa, janeiro de 2016

Joana Consiglieri – Flower Ornament

The poem “Hymn to the Flowers” by Horace Smith celebrates Flowers, it sings of nature as spiritual experience. It pays homage to beauty, life, the creation of Earth and the Universe.

Flower Ornament, a series of golden monochrome work by Jorge Santos is another celebration of Nature. A fleeting fixation of the moment. They capture nature’s immaterial forms, perceiving the essence of the-thing-itself through the material form of flowers. They become ceremonial acts consecrating life’s small details. Flowers emerge from a veiled intimacy. Santos perpetuates the sacred through repetition but in any selected image from his monochromatic golden series, there is a feeling that we are appreciating the details of the natural world.

While gazing at the spirituality of the gold we are reminded of the work of the artist Yves Klein, and his iconographic use of colour. Klein when working with gold leaf was fascinated with its fragility, attributing to it “life’s mystical and elementary cycle” (2004, p.69) as written by the German Art Critic Hannah Weitemeier when considering Klein’s monochromes, primarily Monogold from 1961.

As a contemporary artist Jorge Santos develops and expresses this continuity of gold’s value from its use in Klein’s conceptual art through the possibility of weaving it into a “vague beauty,” as put by Umberto Eco on the poetry of Giacomo Leopardi (Le Ricordanze – Canti, 1824). Santos contemplates, albeit in a different way, the golden iconography that almost fades into its background, unravelling a glimpse of the natural moment in a shadow. It is a testimony to another dimension of spirituality, which existence is manifested by the immensity of the field in which we walk.

Flower Ornament places each ‘act of picking’ a flower into a worldly sign, making it perennial. A memento. Projecting it into an interior space; the house or the home. In this sense, the signs created by Santos expands from the outside into the intimacy of indoors, creating fleeting images that express the threshold of all things. This fleetingness, spawned by a phenomena between landscape and the urban, “not-being” and “being”, is present in some of his other works in a more legible phenomenological experience. Nevertheless, the subtlety of the gold shadow in space lets duplicity flow back into oneness. As Lau-Tzu affirmed:

In its Unity, this Oneness is a mystery.
The mystery of mysteries.
It is the gateway through which marvels enter.